Com a palavra,
Augusto Nunes
"No século passado, Lula e Maluf brigaram com freqüência e ferocidade. Em abril de 1993, entrevistado pelo jornal "O Globo", o atual presidente da República pegou pesado com aquele grande satã civil parido pela ditadura militar. "Esse cara representa a elite que levou o país ao fracasso e à corrupção, colocando 70 milhões de brasileiros abaixo do nível de pobreza", bateu Lula. Maluf contra-atacou no mesmo dia da publicação da entrevista: "Antes de candidatar-se a presidente da República, ele deveria terminar o curso primário e tentar a prefeitura de São Bernardo", revidou de bate-pronto.
A luta continua, sugeriram entreveros ocorridos na virada do milênio. "Espero morrer sem ter prestado um único favor ao Maluf", prometeu-se Lula na edição de novembro de 2000 da revista "Caros Amigos". "Não se pode esperar nada inteligente de um sujeito tão ignorante", foi à luta Maluf. Nos meses anteriores, o ex-prefeito de São Paulo, que tentava voltar ao cargo, trocara chumbo grosso outros figurões do PT, sobretudo a candidata Marta Suplicy.
Em debates na TV, entrevistas concedidas a quem lhes aparecesse pela proa, no horário eleitoral gratuito, "Dona Marta do PT" (para ele) e "O Nefasto" (para ela) travaram um duelo equivalente, no campo retórico, às medonhas brigas de rua no Brooklin (o de Nova York, não a versão paulistana). Alguns diretos de esquerda marcaram o estilo de Marta: "Maluf é um mitômano, um mentiroso contumaz. Deveria calar a boca em vez de usar métodos nazistas e discriminar homossexuais. Uma das minhas metas prioritárias é impedir que se conjugue o verbo malufar. Isso significa varrer a corrupção".
Maluf replicou com vigorosos uppercuts, alguns dos quais valem replay: "Dona Marta é uma granfina arrogante, produzida por cabeleireiros de luxo e marqueteiros bem pagos. Falar da vida dela é baixar o nível. O que fez além de ensinar pornografia para crianças no horário nobre da televisão?". Viriam nos anos seguintes outras colisões e estocadas, com graus distintos de agressividade. A beligerância começou a abrandar-se quando Lula e seus pares descobriram que só conquistariam o Palácio do Planalto a bordo de alianças outrora intragáveis. Acordos celebrados por todos os partidos depois da invenção do segundo turno eleitoral fizeram o estrago restante. A última vestal caiu na vida.
Hoje, paradoxalmente, São Paulo é a mais perfeita ilustração de uma ironia produzida por Maluf ainda em 1993: "Na hora de fazer alianças que lhes parecem convenientes, os petistas não passam de um bando de espertalhões". A frase mirava na parceria feita pelo PT com o PMDB de Orestes Quércia. Pode ser aplicada ao acordo que encerrou uma guerra que ameaçava competir em longevidade com os barulhos no Oriente Médio.
As apurações do primeiro turno de 2004 nem haviam terminado quando Marta tirou o demônio para dançar. "Eu quero o voto de todos os eleitores malufistas e do próprio Maluf também", informou. "Os pecados de Marta não existem mais para nós", apadrinhou o deputado federal Severino Cavalcanti, do PP pernambucano, que amava infernizar a prefeita quando eram colegas de Congresso. "Meu voto é da Marta", declamou Maluf. "Pelo bem de São Paulo, ela precisa continuar." Cartazes que os mostram lado a lado e sorridentes agora trafegam colados a veículos dos eleitores que abençoaram o casamento inverossímil.
"Temos muitas propostas comuns", anima-se o deputado Ítalo Cardoso, presidente do PT paulistano. Mais feliz ainda está o deputado Pedro Corrêa, presidente nacional do PP de Maluf. "Claro que Marta é muito melhor que Serra", proclama Corrêa. "E o partido também sairá ganhando no plano federal." Claro que Corrêa vislumbra ministérios no dote da noiva.
Não é esse o mesmo Pedro Corrêa que, em 2002, apoiou o candidato à presidência José Serra e dizia horrores de Lula? É e não é. "Direita e esquerda, hoje‚ são sinais de trânsito", resume. Cinismo demais? Talvez, mas não lhe falta companhia. Acaba de ganhar o mais vistoso dos endossos. "Esse negócio de ideologia acabou", decidiu o presidente Lula.
Neste Brasil velhaco, pode até hibernar por uns tempos. Mas princípios éticos não morrem. Homens de bem sempre houve, sempre haverá. A decência sobreviveu a tempos piores. Vai superar também a Era da Pouca Vergonha".